Doutora Maria das Dores Camargo de Góes, psicóloga, tomou distraidamente a ficha da nova cliente que a esperava na sala.
Era uma excelente profissional, gostava do que fazia e pretendia continuar enquanto pudesse apesar de não ter necessidade disso.
Tinha uma vida estável, um casamento feliz, boa situação financeira, filhos independentes, mas aos sessenta anos ainda sentia-se plenamente capaz de ser útil.
Surpreendeu-se com o nome na ficha: Francine Leal de Campos.
Era ela! Seria possível? Uma homônima, talvez? Pouco provável!
Quando Norma e Aurélio se casaram foram morar na casa vizinha à de Judith e Benvindo.
Os dois casais se tornaram desde logo, muito amigos, apesar da diferença de idade e posição social.
Norma e Aurélio eram muito jovens, animados, gostavam de freqüentar festas e receber amigos.
Judith já era mais velha e trabalhava muito com costuras para complementar o salário do marido.
Mas para fazer uma gentileza para a nova vizinha ela sempre arranjava um tempinho. Era o frango que a outra não sabia como cortar, a mancha que não conseguia tirar, a barrinha da calça...
Judith costurava muito para Norma. Ela estava sempre fazendo novos vestidos e, conhecendo a habilidade da outra se tornou sua melhor freguesa.
Um ano depois, a novidade. Norma estava grávida e surpreendentemente Judith também.
E nasceram quase na mesma época as duas meninas, mas foi muito diferente a acolhida de cada uma.
Norma e Aurélio fizeram uma verdadeira festa. Arrumaram o mais encantador dos quartinhos e compraram uma quantidade incrível de roupinhas.
Judith pensou no transtorno que ia ser para ela ter um bebê agora que estava precisando tanto trabalhar. Benvindo não ficou nem um pouco entusiasmado com a novidade, mas, com o tempo se acostumaram com a idéia. O coração falou mais alto e os dois acabaram fazendo tudo que podiam para a sua princesinha.
As duas meninas cresceram lado a lado.
Quando Norma queria sair, o que era muito freqüente, deixava a filha com a vizinha. Judith foi para ela como que uma segunda mãe. As duas meninas pareciam serem irmãs.
À medida que cresciam, no entanto, começou a evidenciar-se a diferença entre elas.
Por mais que Judith se esforçasse não podia dar a filha tudo que Francine tinha e logo criou-se um clima de muita animosidade entre as duas.
Dora tinha inveja de tudo que pertencia à outra. Até do nome!
Seus pais deram-lhe o nome de Maria das Dores e ela desde muito cedo odiou esse nome. A amiga chamava-se Francine, nome sofisticado, de artista. Mais tarde as colegas começaram a chamar a Maria das Dores de Dora e ela adotou o apelido, relegando o verdadeiro nome só para documentos importantes.Muitos colegas e amigos pensavam que seu nome fosse Dora.
De vez em quando, Norma fazia limpeza no armário de brinquedos da Francine e levava para a Dora tudo que ela não queria mais.
Isto que, quando era pequena, causava-lhe alegria, logo começou a humilhá-la. Ela não conseguia entender por que Francine tinha tudo que queria e ela tinha que se conformar com os seus restos.
E assim as duas foram crescendo, amigas, apesar do ciúme doentio de Dora.
Francine casou-se cedo. Saiu da Escola para casar-se e a mãe achou muito bom, pois o rapaz era muito rico, ela nunca ia precisar trabalhar fora mesmo. Não ia fazer-lhe nenhuma falta ter uma profissão.
Durante o ano seguinte Dora cansou de ouvir falar nos preparativos para o grande evento, na cerimônia, na festa, no enxoval, na viagem de núpcias.
Dora ouviu, um dia, o pai criticar o Aurélio por ter hipotecado a casa para levantar dinheiro para o casamento, porque, segundo ele a família do rapaz era muito chique e eles não podiam fazer feio.
Dora não pensava assim. Achava que Aurélio era o melhor pai do Mundo. Muito melhor que o seu que só sabia fazer restrições a tudo que ela queria.
E revoltava-se com o que ela julgava ser uma injustiça da sorte. Tudo para Francine que já tinha tudo e nada pra ela que não tinha nada. Não podia muito bem ser para ela esse casamento de Cinderela?
Depois do casamento Francine foi para outra cidade. Seus pais também se mudaram pouco depois e, aos poucos foram se distanciando até que perderam o contato.
Dora estudou, formou-se, tornou-se uma profissional de renome.
Outras preocupações a envolveram e ela quase esqueceu a amiguinha de infância.
E agora, Francine estava ali. Era sua cliente e, se estava em seu consultório é porque teria algum problema. Mas, qual? Francine era a pessoa mais feliz que conhecera!
Tinha que recebê-la e atendê-la. Sua agenda estava cheia e ela não gostava de atrasar as consultas. Pediu à secretária que a fizesse entrar.
Surpreendeu-se ao vê-la. Se não tivesse o seu nome, por certo não a reconheceria. Estava envelhecida, mal vestida, expressão triste.
Não pode evitar um lampejo de vaidade. Estava bem melhor do que a outra!
Francine também não demonstrou lembrar-se dela.
As duas mulheres cumprimentaram-se formalmente e Dora convidou-a a sentar-se e começou com aquele seu conhecido papinho preliminar para desinibir.
Em poucas palavras Francine descreveu o que fora sua vida desde que se distanciaram.
Seu casamento fora um fracasso e, quando separaram-se ela ficou sem nada, pois, embora ele ganhasse muito bem, suas atividades eram ilegais, seu patrimônio um verdadeiro emaranhado de negociatas.
Sofreu muito, pois não tinha profissão, não fora acostumada a trabalhar e teve que começar a nova vida da estaca zero.
Tentara até suicídio, mas tudo que resultou foram problemas de saúde para piorar a situação.
Dora perguntou:
- E sua infância, como foi?
- Foi feliz. Tive pais que me faziam todas as vontades. Uma vizinha que sempre me acolhia com muito carinho e uma menina de minha idade de quem eu gostava muito.
Só que essa menina, não sei por que, não gostava de mim. Por mais que eu procurasse agradar, compartilhar os meus brinquedos ela sempre me tratava mal.
Uma vez, era seu aniversário e ela estava brigando com a mãe porque queria uma festa e a mãe não queria, ou não podia, fazer.
Pedi para minha mãe fazer uma festinha para ela, mas ela achou que não convinha, que os pais delas podiam achar que ela estava se intrometendo.
Eu, então embrulhei um dos meus melhores vestidos e levei de presente para ela.
Mas a sua reação foi terrível! Disse que não precisava de esmola.
- Não é esmola, Dora! É um presente!
- Desde quando roupa velha é presente?
A mãe dela acabou dando-lhe umas palmadas, eu voltei chorando para casa e para completar minha mãe ainda me deu uma bronca.
Dora sentiu-se corar. Percebeu que Francine sabia quem ela era e viera fazer a consulta só para dizer-lhe aquilo.
Ficou meio desconsertada, mas Francine a surpreendeu:
- Aceita um pedido de desculpas com cinqüenta anos de atraso?
- Desculpas? Quem devia pedi-las sou eu. Foi imperdoável o que fiz!
- Eu tive a melhor das intenções mas fui muito ingênua pensando que poderia agradá-la com um vestido usado. Por minha causa você acabou apanhando.
As duas acabaram rindo. Tanta coisa lhes tinha acontecido depois daquilo! Coisas muito mais graves, mas que talvez não tivessem marcado tanto.
Acabaram marcando um encontro para conversar mais, por todas as novidades em dia e, talvez, resgatar aquela amizade tão bonita que haviam deixado para trás..
Basílio era velho morador do bairro, muito estimado por todos.
Nas tardes de domingo os netos de Júlio, seu vizinho, reuniam-se para jogar bola no quintal e, de vez em quando a bola voava para o quintal do Basílio.
Os meninos não tinham dúvida. Pulavam o muro e iam buscá-la.
Às vezes o Basílio nem via, mas, quando via, brincava com eles:
- De quem foi a lateral desta vez?
Outras vezes a bola ficava perdida por lá e ele chamava o Julio no muro:
- Olha a bola dos meninos!
Julio se desculpava:
- Essas crianças! Sempre incomodando os outros.
- Que nada! Nos também fomos crianças, não fomos?
A devolução da bola perdida era pretexto para um dedo de prosa. Basílio gostava de conversar, discutir política, futebol, comentar as ultimas notícias.
- Não, esta bola não é dos meus netos!
- Não? Então deve ser do filho de Zé Maria, o vizinho do outro lado.
E lá se ia o Basílio bater papo com o ZéMaria
Mas, um dia o Basílio realizou o seu sonho de muitos anos. Comprou uma casa própria e mudou-se.
Os vizinhos sentiram a sua falta, mas ficaram felizes por ele. Ele merecia tudo de bom. Era uma ótima pessoa.
E um novo vizinho, o Fausto, ocupou a casa onde ele morara
No primeiro "escanteio",porém, quando o garoto pulou o muro para pegar a bola ele ficou furioso. Não queria molecagem no seu quintal.
Os meninos insistiram e ele reclamou para o Júlio.
O Júlio começou se desculpando, mas, diante da arrogância do outro, revidou e acabaram brigando.
Irado o Fausto teve uma brilhante idéia para resolver de vez, o problema. Ia comprar um cachorro bem grande e bravo.
Foi a uma loja de cães e escolheu o que, segundo o dono, era uma verdadeira fera.
Teve que retornar várias vezes para que o bicho o conhecesse e aceitasse como seu novo dono.
Quando chegou com o monstro em casa a mulher ponderou:
- Isto é um perigo! Se ele pegar uma criança vai machucar muito! Pode até matar!
Mas o Fausto estava determinado:
- Ele não vai sair de dentro do meu quintal. Quem se atrever a entrar terá o que merece.
A partir de então tudo se acalmou. As crianças não pularam mais o muro nem ele encontrou bolas perdidas no quintal.
Numa tarde silenciosa, porém, ele ouviu um assobio no portão.
Abriu a porta e lá estava um garoto com o nariz enfiado na grade.
Antes, porém que ele pudesse fazer qualquer coisa, a sua "fera" apareceu correndo com a bola na boca e entregou-a docilmente para o menino que acariciou sua cabeça enquanto ele abanava alegremente a cauda.